Este livro investiga um dos temas mais sombrios e silenciados do século XX: o canibalismo gerado por fomes políticas em regimes comunistas. Longe de tratar a fome como acidente climático ou falha imprevista de gestão, a ...
Por Márcio Sabedotti
Este livro investiga um dos temas mais sombrios e silenciados do século XX: o canibalismo gerado por fomes políticas em regimes comunistas. Longe de tratar a fome como acidente climático ou falha imprevista de gestão, a obra demonstra, com base em arquivos, testemunhos e estudos acadêmicos, como a escassez extrema de alimento foi, em diversos momentos, resultado de decisões conscientes de engenharia social. Ao controlar o pão, a palavra e o medo, o Estado totalitário não apenas matou milhões de pessoas, mas forçou parte da população a transgredir o último tabu humano: alimentar-se do próprio semelhante.
A partir de casos paradigmáticos como o Holodomor na Ucrânia soviética, a Grande Fome chinesa sob Mao, os campos de extermínio do Khmer Vermelho no Camboja e a fome crônica na Coreia do Norte, o livro reconstrói, passo a passo, o caminho que leva de decretos, planos quinquenais e coletivizações forçadas à desintegração da moralidade cotidiana. Mostra como confisco de alimentos, punição coletiva, propaganda e censura criam um ambiente em que a realidade é ocultada, a empatia é destruída e a sobrevivência passa a se impor sobre qualquer limite ético ou afetivo.
Sem ceder ao sensacionalismo, a obra articula história, política, antropologia e ética para responder a uma pergunta incômoda: o que acontece com a condição humana quando o poder estatal decide transformar a fome em instrumento de domínio?