O que acontece quando um caso histórico, minuciosamente documentado por autoridades civis e religiosas do século XVII, desafia não apenas a imaginação, mas também as categorias clássicas de ciência, fé e razão? Este livr...
Por Márcio Sabedotti
O que acontece quando um caso histórico, minuciosamente documentado por autoridades civis e religiosas do século XVII, desafia não apenas a imaginação, mas também as categorias clássicas de ciência, fé e razão? Este livro parte exatamente desse ponto: o milagre atribuído a Nossa Senhora do Pilar na vida de Miguel Juan Pellicer, o “coxo de Calanda”, cuja perna amputada teria reaparecido de forma súbita e completa em 1640, na pequena vila de Calanda, Espanha.
Em vez de apresentar apenas uma narrativa piedosa ou um relato apologético, esta obra reconstrói o episódio com rigor documental: testemunhos, autos notariais, registros oficiais, contexto histórico e debates posteriores. O leitor é conduzido passo a passo pela trajetória de Miguel Pellicer — do acidente e amputação à fama de mendigo devoto, da noite do suposto milagre aos interrogatórios formais, até a sentença que reconhece oficialmente a ocorrência extraordinária.
Mas o objetivo do livro vai além da reconstituição histórica. A partir do caso de Calanda, o autor propõe uma reflexão sistemática sobre o que, afinal, chamamos de “milagre”. Em vez de tratar o milagre apenas como “suspensão das leis da natureza” ou “ato divino inexplicável”, o livro introduz um novo -enquadramento epistemológico, que distingue:
-intervenção de uma inteligência superior;
-processos de “inteligência natural” não consciente (como os da cicatrização e autorregulação biológica);
-eventos estatisticamente raros, porém naturais;
-limitações da época